
NO ANO SACERDOTAL
recordamos um exemplo de vida sacerdotal
DOM JOSÉ VARANI
- nos 20 anos de sua Páscoa -
“Lembrai-vos de vossos dirigentes,
que vos pregaram a Palavra de Deus:
considerando o fim de sua vida,
imitai-lhes a fé!” – Hb 13,7
Neste ano sacerdotal, os presbíteros foram convidados a conhecer as biografias de padres e bispos que viveram santamente sua vocação. Arrisco falar de um bem próximo a nós: DOM JOSÉ VARANI, nosso saudoso II Bispo Diocesano. Um homem sempre bem lembrado com estima pelo clero, amado pelo Povo de Deus, referenciado entre seus pares onde quer que se vá.
Fiz a intenção de conhecê-lo mais ao longo deste tempo. Li muitos registros históricos, folhas e mais folhas de “O Ascensor”, recolhi testemunhos de parentes e amigos e de várias pessoas que conheceram bem o querido Dom Varani, jaboticabelense, nascido em 14 de outubro de 1915. Fora ordenado padre em 23 de dezembro de 1939 em Roma (Basílica de São João de Latrão) e Bispo em 1º de novembro de 1950 em Jaboticabal (Catedral Diocesana Nossa Senhora do Carmo). Ao entregar-se a Deus definitivamente, apresentou-se diante do Trono da Graça e da Misericórdia Divina com seus 50 anos de padre e praticamente 40 de Bispo, dos quais 20 como II Bispo Diocesano de Jaboticabal.
Como não é aqui possível discorrer sobre toda a sua bonita e santa biografia, falo de seus últimos momentos neste mundo e de alguns traços que podem ser o seu “legado espiritual” para nós, padres diocesanos da Jaboticabal de hoje.
Nosso II Bispo Diocesano faleceu entre 7h30 e 7h45 do dia 24 de junho de 1990, na Santa Casa de Misericórdia de Araraquara, após três meses de duro e silencioso sofrimento causado pelo câncer. O corpo chegou a Jaboticabal às 11h30, acompanhado por Dom Luiz Eugênio Perez, Padre José Lanza Netto e Padre Gabriel Vaz e escoltado pela Polícia Rodoviária. Durante todo aquele dia, foi velado na Sé Catedral. Às 17h, o esquife foi colocado defronte à porta principal da Catedral e aconteceu a Missa de corpo presente, presidida por Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, sendo a encomendação oficiada por Dom Luiz. Após a encomendação e última despedida, foi tumulado sob o nicho de Nossa Senhora do Carmo. Hoje, seus restos mortais repousam na cripta da Sé Catedral, na sala contígua à Capela do Santíssimo, à direita de quem nesta entra.
Muitas qualidades e traços que o fazem um transparente do Bom Pastor sobressaíram em sua “existência sacerdotal”. Gostaria de, com simplicidade, destacar apenas três, que ficaram registrados nos documentos que tecem sua biografia:
1. Um homem simples e bom
Uma das marcas mais características de Dom Varani foi a bondade, aliada ao despojamento e à simplicidade. Afável, humano, sorridente, comunicativo e sensível. Estes traços estão acima de seus dotes como professor brilhante (nos primeiros tempos, seja aqui em Jaboticabal no Seminário Menor seja em São Paulo no Seminário Central seja quase no fim da vida ensinando em Ribeirão Preto e Barretos), homem influente (é mérito seu a instalação da faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária de Jaboticabal) e bispo bem considerado (visitador apostólico dos Seminários do Sul do Brasil, presidente da Comissão de Estudos e redivisão dos limites das Dioceses e criação de novas dioceses, membro da Comissão representativa do Episcopado Paulista 1975/1979, batalhador pela criação da Diocese de Barretos).
2. Imagem viva do bom Pastor
Em seu testamento espiritual, Dom José declara-se “católico convicto e sacerdote feliz na própria vocação”. Há muitos testemunhos registrados de quantos puderam haurir de sua convicção de fé e realização vocacional, falando de Dom José como pai, amigo, conselheiro, interessado pelas pessoas, bom pastor. Clero e povo são unânimes em falar de Dom Varani como aquele que amou o rebanho e entregou-se por ele até o fim. Já no final da doença que o vitimou, Dom Varani recebeu a visita de Dom Pedro Fré (então Bispo de Barretos) que lhe pediu uma bênção para o povo barretense. O mesmo relata: “ele, sem poder escrever e falar, se recolheu por uns instantes e depois traçou o sinal da cruz. Foi uma cena. Um momento inesquecível, em que percebi o coração do pastor querendo abençoar a todos aqueles por quem sempre trabalhou, aqueles que ele trouxe em seu coração”.
3. Mestre de vida espiritual
“Homem de profunda oração e de esperança”; assim é recordado Dom José Varani por um de seus ex-alunos. Um homem dotado por Deus de eloqüência e clareza na pregação da Palavra e na exposição da Doutrina da Igreja. Sobressaia nele o zelo e a força da autoridade de quem veio para servir e se colocou como pai e amigo de todos. Não só ensinou mas viveu o que pregou ao longo de toda uma existência de testemunho evangélico e sacerdotal. Seu calvário silencioso e humilde, durante três meses num quarto de hospital, marcado pelas jaculatórias freqüentes “Deus seja bendito!” e “Deus seja louvado!” coroou sua trajetória terrena, testemunhando a altura meridiana de santidade de sua vida e do exemplo de seu abandono à vontade do Pai.
Penso que estas pequenas anotações podem ajudar a que nos espelhemos muito no exemplo de Dom Varani, agora que vamos celebrar os 20 anos de sua passagem para a eternidade. Agradecemos a Deus por termos nele – primeiro padre e depois bispo do nosso clero diocesano - um incentivo a uma vida virtuosa e comprometida com Cristo, com a Igreja, como o Povo de Deus, com o presbitério do qual fazemos parte, com o ministério ao qual fomos chamados. Sua vida é um referencial para nós, neste final de ano sacerdotal.
Só podemos terminar, fazendo eco a Dom Luiz Eugênio que, por ocasião da morte de Dom Varani, assim se expressou: “Ainda não soubemos apreciar devidamente o valor deste grande Bispo. Certamente a história irá fazer mais justiça a ele que todos nós que com ele convivemos sem nos dar conta de suas grandes virtudes, de seu grande coração e de sua vida santa!” (O Ascensor, 1º/07/1990).
Pe. Marcelo Adriano Cervi
Reitor do Seminário Dioc. Nossa Senhora do Carmo